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GEADAS: CONDIÇÕES DE OCORRÊNCIA E
CUIDADOS
H. S. Pinto, J. Zullo Jr e O. Brunini
INFORMAÇÕES GERAIS:
- Em noites de geadas, com ausência de ventos portanto, o ar frio "escorre"
encosta abaixo como se fosse água durante a chuva, acumulando-se no fundo de vales ou
bacias. Assim, culturas plantadas nas partes baixas do terreno estão sujeitas às geadas,
devido a esse acúmulo do ar frio. Lembre-se de manter a meia - encosta livre de mato e o
solo uniforme permitindo assim que o ar frio passe livremente sem danificar a cultura;
- As geadas de irradiação ocorrem na ausência de ventos e sempre com céu claro. Nessas
condições, as plantas perdem calor e se resfriam durante a madrugada, passando a
"fabricar" mais ar frio que se acumulam nas partes baixas do terreno. A
eliminação de vegetação rasteira (grama, capim, restos de cultura etc) em áreas acima
da cultura desfavorece portanto a formação de geadas. A baixa umidade favorece a queda
das temperaturas.
- O uso de cobertura morta ("mulch") nesta época do ano favorece a formação
de geadas de irradiação em noite com temperaturas baixas;
- Geadas fracas ocorrem em noites de céu claro, sem ventos e baixa umidade do ar, em
baixadas, com temperatura do ar ao redor dos +4 ou +5C. Geadas moderadas com temperatura
entre +2 a +3C e severas, entre 0 e 2C. Nessas condições as folhas vegetais mais
expostas atingem temperaturas cerca de 5C mais baixas do que no ar. Folhas de café e cana
morrem com -3,5C, citrus -6 a -7C, tomate e verduras +2C e banana e mamão +5C.
- A ocorrência de geadas na região Sudeste, concentra-se nos meses de junho a agosto com
casos excepcionais em maio e setembro. De modo geral, em média ocorrem geadas fracas a
cada 4/5 anos, fortes a cada 9/11 anos e severas a cada 18/20 anos.
- A melhor proteção direta contra geadas para as culturas hortícolas, viveiros ou
plantas jovens no campo é a irrigação (aspersão ou inundação) algumas horas antes da
ocorrência. O uso de cobertura plástica, sacos de papel, palha etc é também eficiente.
A simples queima de pneus ou outras substâncias produzem apenas fumaça e não tem efeito
preventivo algum.
- Na região do Norte do Paraná, uma forma encontrada pelo IAPAR para proteger mudas
novas de café no campo contra geadas, consiste em pisar na plantinha mantendo-a dobrada
junto ao chão e com a enxada, jogar terra sobre ela.
PLANEJAMENTO DE PLANTIO EM FUNÇÃO DE GEADAS
As medidas de longo alcance visando a proteção das plantas (principalmente cafezais)
contra as geadas são definidas pelo Dr. Ângelo P. de Camargo (IAC - climatologia
agrícola):
- Reservar para o cultivo do café os terrenos convexos livres da acumulação de ar frio,
como as elevações com mais de 10% de declividade e os espigões com mais de 5%;
- Evitar o plantio em baixadas e em encostas baixas, em espigões muito extensos ou
planos, em terrenos de configuração côncava e em bacias com gargantas estreitas a
jusante;
- Nunca deixar vegetação alta e densa abaixo do cafezal, quer a meia encosta quer em
gargantas a jusante. Quando não for possível remover toda a mata das gargantas abaixo da
cultura deve-se fazer corredores (cerca de 100 metros de largura) com a função de
escoadouro para o ar frio, impedindo seu acúmulo sobre as planta;
- Quando há vales acima do terreno cultivado deve-se manter a garganta entre esses vales
e o cafezal o mais fechado possível, com matas densas e altas, para evitar a invasão
pelo ar frio vindo de montante. A construção de açudes para represar água acima dos
cafezais é excelente prática de defesa preventiva contra geadas.
- Plantar árvores esparsas nas áreas mais sujeitas à acumulação de ar frio.
O QUE FAZER NA PERSPECTIVA DE GEADA IMEDIATA
- As condições para ocorrência de geadas de radiação são:
- Céu claro
- Ausência de ventos
- Baixa umidade do ar e
- Temperaturas baixas;
- As plantas têm diferentes sensibilidades ao frio e portanto o ponto letal varia com a
temperatura que atinge a folha: café morre com -3,5 C, tomate com +2 C e banana com +5 C.
- Em noites propícias à geadas (obs.1), o gradiente de queda noturna das temperaturas do
ar e das folhas aproxima-se de 1 grau /hora, à partir das 17 horas até as 06 horas.
- Segundo o Dr. Ângelo Paes de Camargo - IAC - pode-se fazer uma estimativa, a
curtíssimo prazo (na madrugada), da possibilidade de geadas danosas às plantas
medindo-se, com um termômetro comum, as temperaturas na copa da cultura (nível das
folhas externas superiores). Coloca-se o termômetro à 10 cm das folhas, exposto ao céu
e começa a se observar as temperaturas próximo às 18 horas. Caso esteja ao redor dos 9
graus significa que às 6 da manhã, com céu limpo e baixa umidade, chegará próximo aos
-3 C nas folhas, podendo danificar cafeeiros. Se estiver em 12 C, chegará aos 0 C,
danificando plantas hortícolas, etc. Deve-se acompanhar a queda das temperaturas se
possível de hora em hora, até meia noite para verificar o gradiente.
- O melhor método de proteção direta, caso se concretize a queda de 1C/horas é
através de irrigação (aspersão, alagamento, regador etc.), com início após a
comprovação da queda da temperatura até nível letal. Métodos de proteção física
como cobrir as mudas ou plantas com jornal, sacos de papel ou plásticos também são
eficientes.
- As plantas são danificadas antes do nascer do sol, durante a madrugada. De nada adianta
queimar pneus ou fazer fumaça apenas.
- Para culturas perenes, como o café, a manutenção do terreno completamente limpo, nas
meias encostas, pode ajudar como defesa preventiva.
FATOS E MITOS
Em noite de geada, o ar em contato com as folhas das plantas é resfriado tornando-se
mais denso e acumulando-se nas partes mais baixas do terreno. Pode se associar essa ação
como se o ar frio fosse água em dia de chuva, que escorre pela encosta abaixo e se
acumula nas baixadas. Daí a expressão "estar com o pé gelado" em noites frias
ser verdade já que o ar nas partes mais baixas sempre está mais frio.
As folhas vegetais morrem devido ao intenso resfriamento causado pelo ar frio. Isso
ocorre durante a madrugada, normalmente no horário próximo ao nascer do sol, quando a
temperatura atinge o nível mínimo. É falso portanto dizer que a planta é queimada
pelos raios solares, logo ao nascer do sol. A claridade serve apenas para se constatar que
as plantas foram queimadas. Se fosse verdade essa crença, as plantas sempre seriam
queimadas apenas na face Leste, correspondente ao lado do nascimento do sol.
As plantas têm diferentes níveis térmicos letais. Café e Cana morrem com -3,5C,
Citrus com -7C, Tomate com 2C e Banana e Mamão com 5 a 6C. Assim, em boa parte dos casos,
a formação de gelo nas folhas pode não ser a causa de morte das plantas, como observado
para o café.
A queima de pneus para fazer fumaça em noite de geada não tem eficiência alguma na
proteção das plantas. A fumaça não tem o poder de impedir a perda de calor pelas
folhas. A produção de neblina (gotículas de água) é que tem eficiência como forma de
defesa.
Não se deve confundir Geada Negra com Geada de Vento. As geadas negras são
caracterizadas pelo intenso resfriamento da superfície vegetal em noites com ar
extremamente seco, muito frias e calma total. Nesse caso, a perda de calor pelas folhas é
muito rápida e intensa, causando queima total pelo frio. As geadas de vento são causada
por ventos frios, normalmente provenientes de Sul ou Sudeste e queimam normalmente apenas
uma face da planta.
GEADAS OBSERVADAS NA REGIÃO DE CAMPINAS-SP: 1890
A 1999.
Ocorrência de geadas na região de Campinas com temperaturas mínimas absolutas
observadas no abrigo meteorológico menores ou iguais a 2,5C, entre 1890-1920, 1929-2000
(atualização de trabalho de A.. P. de Camargo).
Datas |
Temperaturas mínimas
absolutas em graus C |
Datas |
Temperaturas mínimas
absolutas em graus C |
14/Jul/1892 |
0,2 |
14/Jul/1894 |
1,0 |
25/Jun/1895 |
1,0 |
05/Jul/1898 |
2,4 |
18/Jun/1899 |
1,6 |
19/Ago/1902 |
0,2 |
12/Ago/1904 |
1,5 |
18/Jul/1910 |
2,1 |
23/Jun/1911 |
2,2 |
03/Set/1912 |
1,8 |
25/Jun/1918 |
-1,5 |
29/Jun/1931 |
2,0 |
14/Jul/1933 |
1,4 |
12/Jul/1942 |
-0,2 |
15/Set/1943 |
2,0 |
05/Jul/1953 |
1,2 |
02/Ago/1955 |
1,1 |
21/Jul/1957 |
1,2 |
07/Jul/1962 |
2,0 |
22/Jul/1963 |
2,5 |
28/Jul/1964 |
2,4 |
21/Ago/1965 |
0,6 |
11/Jul/1969 |
2,4 |
09/Jul/1972 |
1,6 |
07/Jul/1975 |
2,2 |
18/Jul/1975 |
0,6 |
31/Mai/1979 |
0,2 |
01/Jun/1979 |
1,0 |
21/Jun/1981 |
0,2 |
08/Jun/1985 |
1,4 |
05/Jun/1988 |
1,8 |
29/Jul/1990 |
2,0 |
26/Jun/1994 |
0,3 |
27/Jun/1994 |
0,6 |
28/Jun/1994 |
2,0 |
10/Jul/1994 |
2,4 |
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A SERRAGEM SALITRADA NO COMBATE À GEADA
Eng. Agr. Ângelo Paes de Camargo
A combustão da serragem salitrada constitui um dos meios mais práticos e baratos de
obter, artificialmente, a turvação atmosférica para o combate à geada de irradiação,
que é a única forma de manifestação severa do fenômeno em São Paulo. Essa mistura
neblígena foi desenvolvida pelos técnicos da "Comissão de Estudos para a Defesa
contra a Geada" do Paraná e tem o mérito de utilizar matéria prima de fácil
obtenção, podendo ser preparada, sem dificuldade, na própria fazenda.
COMPOSIÇÃO DA MISTURA:
Serragem seca de madeira............... 20 kg (7 latas das de querosene)
Salitre seco peneirado....................... 8 kg (8 latas das de um litro de óleo)
Óleo queimado ou diesel.................. 6 litros
Água................................................. 4 litros
A serragem pode ser de qualquer madeira. Não deve todavia, constituir-se de aparas
obtidas em plainas ou outras máquinas semelhantes.
O salitre, que é o mesmo usado para adubo, deve estar bem seco e moído para
possibilitar uma mistura bem homogênea. Sua secagem poderá ser feita expondo-se durante
um dia ao sol, em um terreiro pavimentado ou sobre sacaria estendida no solo.
O óleo queimado ou usado é aquele retirado do carter do motor de automóvel, quando
da troca de óleo, e não deve estar misturado com gasolina. Por essa razão, o óleo
queimado de oficinas de conserto nem sempre serve, pois costuma conter gasolina que foi
empregada na limpeza. Na falta do óleo queimado, pode-se empregar o óleo diesel comum
(fuel oil), com os mesmos resultados.
Esses ingredientes precisam ser muito bem misturados antes da utilização, Não
estando a mistura bem homogênea, a combustão será muito irregular e a produção da
neblina bastante prejudicada. Se houver grumos de salitre, eles se inflamarão formando
chamas que poderão provocar a queima da própria neblina já produzida, que é
combustível, transformando-a em fumaça que não tem a propriedade de impedir a perda de
calor por irradiação.
A operação de mistura dos ingredientes da serragem salitrada poderá ser feita
em terreiros bem limpos ou misturadores rotativos, como aqueles utilizados para a
desinfecção de sementes ou preparo de misturas de adubo.
A mistura pronta será posta a queimar, para a produção de neblina, em buracos
abertos no chão em pontos no terreno situados, normalmente. A montante da cultura a
defender contra a geada. Essas covas, com as dimensões de 40 a 50 cm de diâmetro e 70 a
80 cm de profundidade, deverão ser cheias apenas pela metade com a mistura neblígena.
Dessa forma, em cada uma delas vão cerca de 50 litros da mistura de serragem salitrada,
ficando portanto, uma parte vazia, de perto de 30 cm de altura, que vai constituir uma
espécie de câmara para o resfriamento da neblina, antes de seu lançamento na atmosfera.
Depois de colocada a mistura na cova, esta deve ser coberta com uma tampa de madeira ou,
preferivelmente, de lata, onde se fez cerca de meia dúzia de orifícios de 5 a 7 cm de
diâmetro para o escape da neblina.
A exigência de se deixar uma câmara vazia em cada cova visa diminuir a
possibilidade de queima da neblina e facilitar a extinção das chamas. Caso elas se
manifestem, basta cobrir a tampa perfurada com outra inteiriça, forçando a extinção
das labareda pelo abafamento.
A mistura neblígena poderá, sem inconvenientes, ser colocada nas covas, com
alguns dias de antecedência. Basta evitar-lhe o umedecimento, cobrindo a cavidade com
tampa não perfurada e protegendo-a contra a entrada de enxurrada, quando de chuvas
pesadas.
Para pôr a mistura em combustão lenta, usa-se um pedaço de estopim, desses
empregados em dinamite, com 30 a 40 cm de comprimento, tendo na ponta que vai enterrada na
mistura neblígena um saquinho que contém uma mistura incendiária. Essa mistura tem a
seguinte composição:
Pólvora.................... 1 colher (das de sopa)
Salitre seco............... 4 colheres
Serragem seca.......... 4 colheres
Chegando o momento de começar a turvação da atmosfera (quando a temperatura no
termômetro colocado na parte mais fria do cafezal cair a 2 graus acima de zero), põe-se
fogo na extremidade do estopim, o que fará acender, em pouco tempo, a mistura incendiará
e iniciar a combustão lenta da mistura neblígena.
Normalmente, são suficiente cerca de duas covas por alqueire, embora nem todas
precisem obrigatoriamente, ser acesas na noite da geada. Tais covas, ao invés de ficarem
distribuídas. regularmente, pela lavoura a defender, deve situar-se em lugares
estratégicos, normalmente a montante da lavoura ou nas cabeceiras das bacias ou vales a
proteger. Muitas vezes, poderão estar mesmo inteiramente fora da área que se pretende
cobrir pela nebulização. Convém Ter em mente que, em noite de geada, existe sempre a
brisa descendente microclimática, em conseqüência do escoamento do ar frio sobre as
encostas do terreno em direção as baixadas.
Para a garantia de sucesso na turvação atmosférica é preciso que a pessoa
dela encarregada, na noite de geada, esteja bem familiarizada com o método. Para isso, é
preciso praticar com antecedência a queima da mistura neblígena. Esta, muitas vezes ,
não se queima bem, por estar muito úmida. Será preciso, então, secá-la um pouco mais.
Outras vezes, está demasiado seca e a combustão torna-se rápida demais, facilitando
ainda, a inflamação da neblina. É preciso, nesse caso, umidecê-la, acrescentando-lhe
um pouco de água e misturando-a bem, novamente. Com a prática, o operador reconhecerá,
com facilidade, pelo simples tacto, o estado ideal de umidade que deve apresentar a
mistura antes de ir para o campo.
Uma carga de mistura neblígena pode se queimar em uma ou duas horas. É comum,
portanto, tornar-se necessário o reabastecimento da cova para continuar a nebulização
em noite de geada forte. Outras vezes, pela repetição da geada, é preciso efetuar nova
nebulização na noite seguinte. O lavrador deve, pois, estar prevenido, preparando com
antecedência as quantidades necessárias do material neblígeno, para atender a essas
eventualidades.
OBSERVAÇÃO:
A eficiência do uso da serragem salitrada no combate direto às geadas depende
fundamentalmente das condições ambientes no momento da aplicação. Bons resultados são
muito difíceis de serem obtidos, motivo pelo qual o método deixou de ser recomendado há
alguns anos. Portanto, a tentativa de uso é de responsabilidade exclusiva do interessado.
Cepagri/Unicamp
28 de Junho de 2000
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