Arrozais `ecológicos' aumentam produtividade
Em um resultado surpreendente, agricultores chineses que cultivam arroz dobraram a
produção e praticamente eliminaram a doença mais devastadora sem usar química ou
gastar um centavo a mais. Liderados por uma equipe internacional de cientistas, camponeses
da província de Yunnan implantaram uma mudança simples em seus arrozais. Em vez de
plantarem um único tipo de arroz, como sempre fizeram, eles plantaram fileiras
intercaladas com dois tipos diferentes de arroz. Com isso, os agricultores restringiram
radicalmente a incidência da brusone, doença causada por fungo. Em dois anos, os
agricultores puderam abandonar os fungicidas químicos. "Não me surpreendi que o
sistema funcionasse, mas sim que funcionasse tão bem", disse Christopher Mundt,
biólogo da Oregon State University e um dos autores do estudo, publicado em agosto na
revista Nature. Youyong Zhu, patologista da Universidade de Agricultura de Yunnan, orienta
a maioria dos cientistas chineses envolvidos no estudo, que abrange dezenas de milhares de
agricultores. Vários pesquisadores defendem há tempos que plantar tipos variados de um
vegetal levaria a benefícios à produtividade maior e à supressão de doenças, se
comparado às monoculturas. Separação - A hipótese por trás do estudo, o mais recente
relacionado aos efeitos da biodiversidade, é simples. Se uma variedade de vegetal é
suscetível a uma doença, quanto mais concentrada ela estiver, mais facilmente a doença
pode espalhar-se. Mas essa disseminação fica mais difícil se as plantas suscetíveis
forem separadas por outros tipos de plantas que resistem à moléstia e podem atuar como
uma barreira. O fungo da brusone move-se de planta a planta como um esporo aéreo e seria
bloqueado facilmente por uma fileira de vegetais resistentes à doença. O simples fato de
que a brusone é a mais devastadora doença do arroz já tornaria o estudo importante.
Mas, segundo cientistas entrevistados, não há razão para que a tática usada na China
não funcione em outras culturas, embora não se saiba qual seria a eficiência nesses
casos. Tem havido uma considerável pressão por parte das indústrias de agrotecnologia
para vender sementes de vegetais geneticamente alterados e vegetais geneticamente
homogêneos que tenham um desempenho realmente bom", disse Shahid Naeem, ecologista
da Universidade de Washington. "Mas o que realmente importa nesse estudo é que ele
mostra como perdemos de vista o fato de que existem algumas coisas simples que podemos
fazer no campo para controlar as colheitas.
fonte bol
. |
| Adubação
Salada nutritiva
Pesquisa no Paraná mostra que cultivo em consórcio de espécies distintas de adubos
verdes concentra as qualidades dessas plantas e aumenta seus efeitos positivos sobre as
lavouras
Muitos agricultores brasileiros já se deram conta da importância do cultivo de plantas
que, mesmo sem produzir grãos ou frutos, acabam ajudando a melhorar os resultados das
culturas comerciais. Chamadas de adubos verdes, muitas delas são conhecidas e utilizadas
no país, com efeitos diferenciados sobre o solo. "Cada espécie de adubo verde tem
uma característica específica", explica Ademir Calegari, pesquisador do Iapar -
Instituto Agronômico do Paraná. Ele é o coordenador de uma pesquisa que vem comprovando
que a soma das propriedades de espécies diferentes pode multiplicar os benefícios para o
agricultor. Vários experimentos a campo demonstraram que o plantio de adubos verdes de
forma concomitante e concentrada em uma mesma área aumenta consideravelmente os efeitos
positivos sobre os cultivos seguintes, especialmente onde se utiliza o plantio direto.
A adubação verde foi utilizada, inicialmente, na chamada agricultura alternativa, mas os
bons resultados e as pesquisas de variedades de adubos adaptados aos vários climas e a
microrregiões do país a difundiram também para as grandes áreas agrícolas. Com o
advento do plantio direto, principalmente as gramíneas começaram a ser cultivadas como
cobertura de solo e formadoras de palhada no período de inverno, além de tornar-se uma
boa opção de forragem para os animais em propriedades que integram lavouras com a
pecuária. Com o tempo, no entanto, esse tipo de manejo ainda pode apresentar problemas.
"Como qualquer espécie que se planta em sistema extensivo de monocultura, os adubos
verdes também começaram a atrair pragas e doenças", explica Calegari. Além disso,
as raízes mais superficiais das gramíneas, por exemplo, tendem a concentrar
microorganismos e nutrientes nas camadas superficiais do solo, que, com o manejo de
plantio direto, começa a sofrer compactação, principalmente quando a sua estrutura é
mais argilosa.
O consorciamento tem como objetivo resolver esses problemas e otimizar as ações
benéficas dos adubos verdes, levando em consideração as propriedades de cada espécie,
explica Calegari. As leguminosas, como a ervilhaca, o guandu ou a mucuna, possibilitam o
desenvolvimento de bactérias em suas raízes, que têm o poder de retirar o nitrogênio
da atmosfera e fixá-lo no solo, tornando-o disponível para a próxima cultura. Além
disso, mucuna, crotalária e guandu também são muito eficientes no combate aos
nematóides. Já as gramíneas, como o milheto, o centeio ou a aveia preta, têm a
capacidade de agregar as partículas de terra, evitando assim a erosão. O centeio e a
aveia também são eficazes no controle de fungos, e o milheto é muito eficiente na
fixação do potássio. Por fim, as raízes potentes e profundas de algumas espécies,
como o nabo forrageiro, atuam de forma a descompactar e oxigenar o solo.
Uma das experiências de consorciamento do Iapar está sendo desenvolvida por uma equipe
multidisciplinar (participam especialistas em pastagem, máquinas, solo etc.) com 13
agricultores do oeste do Estado, em parceria com a empresa Itaipu Binacional. Em Santa
Helena, a cerca de 140 quilômetros de Foz do Iguaçu, no Paraná, Amadeus Bortolini está
entusiasmado com os resultados. Produtor de soja, milho e trigo, ele usou o manejo
tradicional - aragem e gradagem - até 1995, quando adotou o plantio direto. Mas, como
utilizava apenas a palhada da cultura anterior, que fornecia um volume muito pequeno de
massa seca, começou a sofrer com a degradação e a compactação da área e com a
invasão de plantas daninhas.
Na área que reservou para os testes da nova técnica, Bortolini plantou uma
"salada" de ervilhaca, nabo forrageiro e aveia preta. "Fizemos uma análise
do solo dessa área para determinar suas necessidades, antes da escolha das variedades de
adubo verde", explica Calegari. Segundo o pesquisador, a base da composição desse
tipo de consórcio é uma leguminosa e uma gramínea, mas as espécies devem ser
escolhidas de acordo com os problemas detectados no solo. Na área de Bortolini, o nabo,
uma crucífera, age na descompactação e oxigenação do solo; a ervilhaca, na fixação
de nitrogênio; e a aveia, como preventivo contra a erosão, basicamente. Mas o consórcio
tem outras vantagens: com diferentes fontes de alimento à disposição, os insetos
dificilmente se tornam pragas, e a proteção contra as ervas invasoras é reforçada.
"Com o passar do tempo, a concorrência dos adubos verdes reduz a produção de
sementes dessas invasoras", diz Calegari. O volume de matéria seca, ou palhada,
produzida no consórcio também é bem maior, aumentando a proteção do solo, e a
decomposição das várias espécies, que vai liberando os nutrientes para a próxima
cultura, ocorre de forma irregular e gradual.
Para os agricultores que puderem abrir mão de uma cultura de inverno, como trigo ou milho
safrinha, o plantio da "salada" de adubos verdes pode ser feito a lanço, no
caso de grãos finos, ou com plantadeira, sobre a palhada da cultura anterior. Os
produtores que têm criação podem tanto soltar os animais sobre a adubação verde,
tendo-se o cuidado de deixar as plantas com no mínimo 7 centímetros, quanto preparar
silagem. No início do verão, passa-se um rolo-faca e um dessecante leve para tombar e
secar as plantas, e a área fica pronta para o plantio direto da nova cultura. "Para
aqueles que dependem do milho safrinha, porém, há também a possibilidade de se
plantarem adubos verdes, como aveia e nabo, no meio da roça, quando o milho passar dos 40
dias", recomenda Calegari.
Além dos vários benefícios para os agricultores, a técnica de adubação verde
consorciada também traz benefícios ambientais. Essa avaliação foi feita pela
superintendência de meio ambiente da Itaipu Binacional, que administra a hidrelétrica.
"Com o manejo inadequado da agricultura na região, começamos a perceber que a
erosão estava causando um grande assoreamento no lago", explica o técnico da
empresa Milton Campos. Córregos e rios levam a terra dos campos de lavoura até o
reservatório. O desafio de reduzir a erosão é a razão pela qual a Itaipu investe no
projeto do Iapar, ajudando tanto na divulgação em dias de campo quanto na sua
implementação. "Estamos apostando que a adoção da adubação verde consorciada
será maciça na região, o que também reforçará a prática do plantio direto. Isso
irá minimizar os problemas ambientais, além de diminuir os custos para os
produtores", diz Campos.
globorural
. |