O MODELO CHINES – È POSSIVEL UTILIZAR A EXPERIÊNCIA DA CHINA NESSE MOMENTO DE MUDANÇAS NO BRASIL?

 

Guilherme Korte e Sergio Miranda-da-Cruz[1]

Brasil e China, na mudança de governo mudam o modelo de desenvolvimento? O ser humano visa o bem estar, a empresa visa o lucro, os seres vivos buscam sobreviver no planeta. Mas são nos compromissos entre as diferentes partes, ou na compatibilização de interesses, que parece estar a base para o tão procurado desenvolvimento sustentado. Em vista da mudança de governo e talvez de ajustes no modelo de desenvolvimento no Brasil, este artigo busca mostrar de uma maneira sintética, alguns sucessos e desafios enfrentados pelo modelo Chinês, esse país também de dimensões continentais, principalmente nos últimos 25 anos e que também passa por uma fase de mudança de governo. A idéia é que possa ser utilizado como ponto de reflexão pelas autoridades brasileiras nesse momento de possíveis mudanças em função do governo que assume a gestão do país a partir de janeiro de 2003.

 

O desenvolvimento acelerado da China [nos últimos anos] trouxe fantásticos índices de crescimento, mas também causou algumas distorções econômicas, sociais e ambientais que estão, no momento sendo, tentativamente, corrigidas. A questão, entretanto, é conseguir o desenvolvimento na mesma velocidade dos últimos anos, mas agora de uma maneira sustentável. Existem três aspectos quando se fala de sustentabilidade do desenvolvimento, segundo a política da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial – ONUDI (ou UNIDO, em inglês, e como é mais conhecida no Brasil). Embora inter-relacionados, eles podem ser abordados, para efeito de análise, separadamente: o aumento da produtividade e da competitividade de uma economia; sem deixar de, ao mesmo tempo, preocupar-se com os seus aspectos sociais como, por exemplo, a criação de empregos, e a integração da mulher no mercado de trabalho; e de dar igual importância, ou seja, não deixar de respeitar os aspectos ambientais.

 

Quão sustentável foi o crescimento, tem sido ou vai ser neste país continental?

Para um país que teve o crescimento médio de seu Produto Interno Bruto (PIB) de 9,3 por cento entre 1978 e 2000 e que gostaria de seguir crescendo a uma taxa media anual superior a 7,0 por cento até 2020, os desafios são muitos. Um exemplo é o desenvolvimento do oeste chinês, como parte dos esforços do governo para corrigir as distorções econômico-sociais. Considerado hoje, juntamente com a entrada da China na Organização Mundial do Comercio (OMC), os dois principais desafios do país. São 450 milhões de habitantes num total de doze estados com administrações individuais (nove províncias, duas regiões autônomas, e uma municipalidade), numa região com grande extensão territorial (cerca de dois terços da área da China) e de suma importância do ponto de vista de equilibro econômico e social. A província de Shaanxi, por exemplo, cuja capital é Xian, e tem uma população equivalente à da Argentina, possui uma indústria têxtil com características diferentes do setor no leste do país. É atrasada e tem a possibilidade concreta de ser completamente fechada, especialmente agora que o país é, oficialmente, membro da OMC. A UNIDO está mostrando que é possível reestruturar um setor industrial e torná-lo competitivo no mercado internacional.

 

Num processo de reestruturação a médio e longo prazo, os benefícios serão claros e visíveis não só para a economia local, mas também do ponto de vista social e ambiental. Mas no curto prazo o impacto é grande, negativo e pode causar desemprego. As autoridades locais entendem e absorvem os problemas, mas entre os representantes das empresas, especialmente as de propriedade estatal, existe uma relutância em aceitar as reformas. O poderoso MOFTEC, o Ministério de Comércio e Cooperação Econômica com o Exterior assumiu, declarou e têm consciência de que se não forem feitas as reestruturações necessárias, a China não vai conseguir manter as taxas de desenvolvimento que vem apresentando. Se as alterações não forem mantidas, a China vai passar por um problema sério. A palavra reestruturação pode significar, num primeiro momento a perda do emprego, mas é a única saída a médio e longo prazo. E teria que ser conduzida de uma maneira sustentável, ou seja, melhorando as condições sociais, sem alterar negativamente as características ambientais de uma região.

 

Hoje doze áreas de conhecimento são consideradas estratégicas pela UNIDO e de importância fundamental para um desenvolvimento industrial sustentável. Esta agencia da ONU acredita que o país ou região do mundo que conseguir avanços substanciais na maioria dessas doze áreas, e o mais importante, for capaz de incorporar o conhecimento alcançado nessas áreas no processo produtivo do país, ou seja, estabelecer as bases para inovação tecnológica, terá sob controle um dos aspectos mais importantes na busca do desenvolvimento sustentável. Estas áreas, que também se relacionam entre si, são: tecnologia aeroespacial e de satélites; biotecnologia e a biologia molecular; meio-ambiente (incluindo a questão de energia); química fina; mecânica fina; tecnologia da informação, incluindo as telecomunicações (a aplicação da microeletrônica e software na área de comunicação); novos materiais, entre eles as cerâmicas, os metais especiais e as fibras; “nutracêuticos” ou produtos alimentares-farmacêuticos resultantes da bioengenharia (a biotecnologia e a química fina); instrumentação médica, e especialmente a sua aplicação na área de medicina preventiva; a microeletrônica; a robótica (que consiste, essencialmente, na combinação da microeletrônica e da mecânica fina) juntamente com a nanotecnologia e; a área de software.

 

A China faz pesquisa e desenvolvimento de forma sistemática em pelo menos nove dessas áreas. O grande enigma não é só o desenvolvimento tecnológico e científico. O desafio, como já observado, tanto nos EUA como no país mais pobre no mundo, é se estas novas descobertas estão sendo incorporadas ao setor produtivo e se a velocidade e forma com que estão sendo incorporadas caracterizam, de fato, o processo de inovação da produção, fazendo com que a economia se torne o mais sustentável possível dentro dos aspectos de competitividade. No social e no ambiental existem outras variáveis a serem supridas. No aspecto de sustentabilidade do ponto de vista econômico, a incorporação do conhecimento, de uma forma quase que permanente, é a de maior importância.

 

Na China, embora com diferentes características em cada um dos casos, existem evidencias preliminares que o conhecimento, gerado e absorvido nos centros de pesquisa e desenvolvimento e em algumas universidades, está sendo incorporado à produção. Pois, a outra questão importante, para se evitar o chamado efeito bolha de uma economia, já observado na Ásia em 1997, é saber o quão organizada e sistemática está sendo a tal incorporação do conhecimento, ou em outras palavras, a inovação tecnológica. Para saber em mais detalhes se isso esta ocorrendo no caso da China, a UNIDO, em cooperação com o programa MIT-China do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT, selecionou uma das doze áreas, a de biotecnologia, como modelo para análise das demais. De fato, se constata, ate o momento, avanços significativos nessa direção. Entretanto, se notou também que a incorporação está ocorrendo de uma forma muito desorganizada. E que se a China, como qualquer outro país em desenvolvimento, quiser agregar valor a sua produção através, nesse caso, da biotecnologia, um modelo mais sistemático de absorção e transferência terá que ser estabelecido. 

 

Por exemplo, na área de software a China está aquém do que poderia estar, não tem avançado e repassado os resultados do conhecimento obtido na velocidade que necessitaria. Na área espacial, por outro lado, está bastante avançada. Está incorporando no setor produtivo, por exemplo, os avanços conseguidos na área de sensoriamento remoto, com resultados surpreendentes na diminuição de enchentes e controle das secas. Um dos desafios mais importantes na área do meio ambiente é o sistema de coleta e administração de informações ambientais. Com o satélite CIBERS 1, a China e o Brasil avançaram muito, inclusive ampliando a cooperação para o tratamento das imagens e a respectiva interpretação dos dados, difundindo-os na agricultura, urbanização, meio-ambiente, setor geológico e de recursos hídricos. Um outro exemplo interessante é na área de microeletrônica. Com base também em trabalhos preliminares conduzidos por instituições de pesquisa no exterior, juntamente com dados levantados pela UNIDO, acredita-se que em menos de 10 anos a China (na dinâmica região de Xangai) já esteja executando a difícil fase de “desenho inovador” que é a etapa de maior valor agregado na produção de circuitos integrados. Nessa área, pouquíssimos paises do mundo alcançaram este estagio de desenvolvimento, e atualmente, através de apoio estratégico do governo chinês, este conhecimento se desloca principalmente de Taiwan para Xangai.

 

Ainda na área de sustentabilidade do ponto de vista econômico, além da incorporação do conhecimento técnico e científico existe um aspecto que em geral por estar sempre presente, não é dada a devida relevância, consiste num dos desafios mais importantes a serem enfrentados por qualquer país, e a China não e uma exceção: a administração dos seus recursos disponíveis. Assim como no Brasil, a China tem tentado fazer o melhor uso dos seus recursos físicos (inclusive financeiros) humanos e ambientais. Entretanto, embora com características diferentes, vê-se ai uma das áreas onde é necessária uma maior atenção por parte das autoridades dos dois paises. Um reflexo das enormes dificuldades em equacionar o problema no modelo chinês está no desempenho de seus quatro maiores bancos. Segundo dados oficiais, o montante de maus empréstimos é hoje de cerca de US$ 300 bilhões. Mas o que mais preocupa as autoridades não é o montante, pois um país com um PIB que deve atingir no final de 2002, cerca de US$ 1.24 trilhão, com o nível de reservas hoje considerado exemplar para qualquer país, e inflação praticamente zero, seria possível absorver distorções observadas na fase de desenvolvimento mais que acelerado. Procura-se no momento, e a todo custo, saber como melhor utilizar os recursos disponíveis, e estancar o processo de investimentos que não usem os padrões internacionais de competitividade, como parâmetros para financiamento. Especialmente nesta fase de abertura da economia chinesa, acelerada, como já observado, pela sua entrada oficial no bloco da OMC. A conseqüência é que todos os esforços necessitariam ser concentrados nos próximos anos, em como emprestar (investir) e o mais importante receber o dinheiro emprestado ou, no caso dos investimentos no setor produtivo desencadeados com recursos governamentais, ter taxas de retorno compatíveis com os padrões internacionais vigentes atualmente. Acredita-se, que este seja, no curto prazo, o desafio maior a ser enfrentado pela China, pois o que menos interessa às autoridades chinesas, no momento, é ver a economia diminuir o ritmo de crescimento, ou o que é pior, entrar em um processo de estagnação similar ao que passa atualmente no Japão. Aqui, se visualiza uma possibilidade concreta de intercambio de experiências e eventualmente até investimentos entre Brasil e China. O Brasil, por diversas razões, tem um sistema de Bancos, onde os maiores, embora bem menores que os grandes Bancos chineses, se desenvolveu muito rapidamente nos últimos anos. Acredita-se, portanto que uma aproximação, nessa área, entre as autoridades dos dois paises, possa ser também interessante para as suas economias. 

 

No aspecto social e de geração de empregos (outro pilar da sustentabilidade), a UNIDO acredita que o desafio da área social de qualquer país seja a habilidade de crescer a uma taxa que possa absorver a força de trabalho e ao mesmo tempo oferecer oportunidades iguais a todos. E os desafios decorrentes do processo acelerado de desenvolvimento do modelo chinês estão, no momento, principalmente na adequação do sistema de provisão de serviços sociais e na formação adequada da mão de obra, especialmente a que esta sendo substituída no já mencionado processo de reestruturação da economia. Hoje, dos 700 milhões de trabalhadores chineses, 50 por cento, ou seja, 350 milhões, respondem por somente 15 por cento do PIB, que constitui o setor primário (agricultura e mineração) dessa economia que cresce a passos gigantescos. Por outro lado, 35 por cento do PIB vem do setor terciário (serviços) que absorve, atualmente, um pouco mais de 27 por cento da força de trabalho chinesa (200 milhões de pessoas). O governo esta ciente que se o objetivo for crescer até 2020 a taxas medias anuais de 7,3 por cento, agora, já não mais o setor secundário (industria manufatureira e construção civil), como nos últimos 22 anos, e sim o setor terciário é que teria que funcionar como locomotiva. A UNIDO estima que em 2015, por exemplo, cerca de 40 por cento dos trabalhadores vão estar envolvidos na industria de serviços. Um valor ainda inferior a media dos paises asiáticos, que é quase de 50 por cento, incluindo o Japão e a Coréia do Sul. Entretanto, 40 por cento de uma mão de obra [que se projeta estar em 780 milhões em 2015], são 310 milhões de trabalhadores. Se considerarmos hoje que nem uma rede de alimentos prontos (“fast-food”) contrata empregados que não tenham o curso secundário completo, temos aí um desafio de maior importância para a China: Como conseguir capacitar, em menos de 15 anos, cerca de 110 milhões de pessoas? Não será fácil! Mas a busca de um modelo sustentável faz com que esse desafio tenha que ser solucionado, pois índices baixos de produtividade na prestação de serviços, não permitirão que o setor funcione como a tão esperada locomotiva e faça com que o objetivo do crescimento a taxas medias de 7,3 por cento deixe de ser alcançado.

 

A palavra chave, segundo a UNIDO é ainda o conhecimento, ou melhor, uma aceleração do fluxo de conhecimento, de uma forma sistemática, como processo efetivo de capacitação. Aqui, como no Brasil, não se trata somente de ir a escola e conseguir a tão procurada educação básica, mas sim conseguir uma mão de obra preparada, flexível, independente da idade que esteja, e o mais importante, que tenha aprendido a aprender. E não se pode, como conseqüência, se considerar somente os modelos tradicionais de capacitação da força de trabalho. E o ensino a distancia (que é uma das aplicações do domínio do conhecimento em duas das doze áreas, a de telecomunicações e aeroespacial/satélites), parece ser uma das poucas alternativas que vão mostrar-se efetivas para o novo modelo chinês. Nesse aspecto, do ponto de vista conceitual e não de volume de formação de mão de obra, o intercambio de experiências com o Brasil na área de formação de técnicos de nível médio, com instituições como o SENAI e o SESC/SENAC, acredita-se possa ser interessante e útil para os dois paises.

A produtividade da mão de obra chinesa, segundo vários estudos de empresas de consultoria, está bem acima da media dos paises em desenvolvimento. A UNIDO não discorda. Porém observa que, embora mais alta que a media, falta ainda espaço a ser ganho nessa área, quando se trata de busca a um modelo mais sustentável. Na Inglaterra, por exemplo, cerca de quase 94 por cento da produção de aço é feita por uma empresa. Na China, apenas 8,7 por cento do aço é feito por uma empresa, a Baosteel. Como a produção da China é muito alta e dispersa em várias empresas, é muito difícil controlar a qualidade do produto, introduzir métodos modernos de gestão de qualidade, e agregar qualquer desenvolvimento tecnológico aos produtos manufaturados pelo setor. E não é só nos produtos finais já existentes, mas também na área de processos, como a introdução de novas tecnologias na área de automação, composição de novos materiais, etc. E a dificuldade de ser introduzida aumenta devido ao grande número de participantes deste mercado. A conseqüência, entre outros aspectos, é que hoje se estima que a China produza 32 toneladas métricas de aço por empregado por ano, muito aquém de paises como a Austrália, por exemplo, que chega a produzir mais de 680 toneladas no mesmo período. Acredita-se que nos próximos 15 anos deva ocorrer a aglomeração das empresas produtoras, na China, assim como em muitas outras partes do mundo, o que significa novos programas de reestruturação industrial.

 

Depois do país aderir à Organização Mundial do Comércio a UNIDO está levantando mais evidências para ilustrar [e sugerir as autoridades locais] um modelo ou outro de estrutura econômica, procurando fugir dessa idéia da China continuar a produtora mundial de manufaturados de baixo valor agregado. Atualmente, cerca de 90 por cento das exportações da China, que em 2002 deve ser superior a US$ 300 bilhões, corresponde a produtos manufaturados. Por outro lado, menos de 30 por cento dessas exportações correspondem a produtos de médio e alto conteúdo tecnológico, segundo conceito da UNIDO. Esse aspecto interessante da composição das exportações chinesas sustenta a tese de que para crescer a taxas elevadas por períodos longos de tempo, o país não pode aceitar a idéia de se tornar a base manufatureira mundial de produtos de reduzido valor agregado. Essa agencia da ONU diz que nesse processo de reestruturação industrial por que passa o país, acelerado agora com a entrada à OMC, quanto maior o grau de complexidade tecnológica de um sistema produtivo, maior o impacto da reestruturação. Por exemplo, na produção de brinquedos e de equipamentos frigoríficos, que em geral são de reduzida complexidade tecnológica, a adaptação da China tem sido e deve continuar sendo muito rápida. Aumentando a sua capacidade de competir no cenário internacional. Por outro lado, na industria automotiva (que exige níveis de automação – que é essencialmente a combinação de microeletrônica, mecânica fina e também ótica - muito mais elevados) a produção chinesa, que tem um custo médio de cerca de 30 por cento acima da internacional deve sofrer nos próximos cinco anos, um dos maiores impactos que um setor industrial no mundo em desenvolvimento pode ter passado. Mas essa reestruturação, por pior que possa parecer a um primeiro momento, é essencial no longo prazo.

 

No processo da busca pela qualidade os chineses querem também a introdução de sistemas modernos de administração em áreas que não foram abordadas de uma maneira muito sistemática no passado. Incorporar novas tecnologias na indústria toma tempo, custa e uma das coisas mais difíceis é levar os benefícios da ciência e tecnologia às áreas rurais, onde vive hoje quase 900 milhões de habitantes. Diferentemente do Brasil, na produção agrícola e pecuária, a China, ao invés de buscar aumentos de produtividade nos últimos 25 anos, fez algo que estrategicamente foi considerado mais importante, se auto-abastecer. Os resultados foram, do ponto de vista estratégico, fantásticos. O país chegou a produzir cerca de 500 milhões de toneladas de grãos durante os picos de produção. E de alguma forma, resolveu o seu problema de abastecimento de produtos agrícolas e pecuários essenciais. Por outro lado, essa produção maciça, ocorreu em detrimento, em vários casos, de índices de produtividade elevados, e muitas vezes com serias conseqüências ao ambiente. Agora, depois da entrada na OMC, o governo chinês está ciente que ganhos de produtividade com qualidade ambiental passa a ser a prioridade, e está disposto a importar o que necessitar dos paises com padrões internacionais de produtividade. Mas acredita, com razão, que o problema da fome (considerado ainda uma prioridade a ser resolvida no Brasil) tenha sido essencialmente equacionado. Segundo a UNIDO, o que o país necessita agora é, uma vez identificados os setores produtivos onde a economia chinesa tem chances concretas de ser competitiva internacionalmente, modernizar a sua agricultura e pecuária o mais rápido possível. E uma das formas dessa tecnologia chegar na zona rural será, por exemplo, através da agricultura de precisão. Através de sistemas de sensoriamento remoto (aplicação de uma das doze áreas de conhecimento, a aeroespacial/satélites), se lê em determinada área onde é preciso corrigir a acidez ou a alcalinidade do solo, bem como a necessidade de produtos químicos básicos, principalmente o NPK, necessários para determinadas regiões. E as máquinas agrícolas, através de um sistema que combina telecomunicação com microeletrônica e robótica, lêem as deficiências, e fazem a devida dosagem somente nas áreas realmente necessárias, otimizando dessa forma, as quantidades usadas de nitrogênio, potássio e fosfato, com a conseqüente redução no custo final da produção.

 

A UNIDO considera que todos os países devam ter uma estratégia de ciência e tecnologia, nem que essa estratégia possa ser considerada, em um primeiro momento, errada. É melhor ter a estratégia e corrigi-la após um determinado período [ou de preferência, periodicamente] do que não possuir uma. Existe, segundo o organismo da ONU, uma correlação quase que imediata entre a existência de uma estratégia saudável e dinâmica e a sustentabilidade do ponto de vista econômico. Principalmente se esta estratégia é desenhada de forma com que os avanços alcançados numa das já mencionadas doze áreas sejam incorporados no sistema produtivo. E os benefícios chegam a população. É preciso monitorar permanentemente a sua implementação, que estaria refletida, do ponto de vista de impacto social, na capacitação adequada da mão de obra. O perigo é existir centros isolados de desenvolvimento, causando distorções sociais e puramente mercantilistas, que terminam por exacerbar ainda mais as diferenças nos níveis de renda e de benefícios sociais. O que se busca é fazer com que os avanços da ciência e tecnologia cheguem de uma maneira imediata, através da geração de empregos, com vagas exigindo maior qualificação da mão de obra, maior remuneração. E por isso deve existir, paralelamente, uma estratégia para o desenvolvimento de recursos humanos, que tenha como objetivo final, melhores salários nas áreas urbanas, entre outros benefícios sociais essenciais. A concentração da população nas áreas urbanas facilita a absorção dos benefícios dessa tecnologia teoricamente gerada para o desenvolvimento humano. E ela chega mais fácil e mais rápido ao homem da cidade do que ao do campo. Na China, ainda que distante, hoje, dos padrões de urbanização observados em muitos paises com níveis similares de industrialização, se espera um avanço muito rápido nos próximos 15-20 anos, através de um processo maciço e inevitável de concentração urbana. Acredita-se, por exemplo, que entre 55 a 70 por cento do PIB chinês em 2020 vá ser gerado em três regiões: nos deltas dos Rios das Perolas e Yangtze, incluindo ai a municipalidade de Xangai, e na região de Pequim/Tianjin.

 

A UNIDO diz que do ponto de vista ambiental (o terceiro pilar da sustentabilidade), o desafio poderia ser resumido em saber como conseguir manter níveis de competitividade por períodos longos de tempo, e ao mesmo tempo, alcançar os padrões sociais almejados, sem romper o equilíbrio ambiental. Novamente, vê-se ai outro desafio importante para os dois paises de dimensões continentais. A China, hoje, e desde 1994, dois anos depois da famosa conferência sobre sustentabilidade da ONU no Rio de Janeiro, tem mantido, através de sua Agenda 21 (que exprime uma estratégia na área ambiental para o século XXI), um recorde no numero de atividades legais e executivas na área ambiental. Por exemplo, nesse período, o país aprovou e esta implementando: oito leis de proteção ambiental; nove leis de administração dos recursos naturais; mais de trinta medidas administrativas nas áreas de proteção ambiental e de administração de recursos ambientais, e inúmeras leis e regulamentos no campo do desenvolvimento ambiental sustentável.

 

Entretanto, apesar de todos os esforços, os desafios são ainda enormes. Tomemos, como ilustração, a situação da desertificação. Existe hoje, na China um total de mais de 2,62 milhões de quilômetros quadrados de desertos, ou seja, duas vezes a área arável do país. E o que é mais alarmante para as autoridades chinesas, a taxa de expansão da área desertificada tem subido, de 1560 quilômetros quadrados por ano, no período 1950-1970, para mais de 3000 atualmente. Em outras palavras, a cada ano, e já ha três anos, cerca de 3000 quilômetros quadrados são adicionados a já enorme área desertificada do país. Com relação a situação de disponibilidade de água, não é muito menos preocupante. Como se sabe, o país possui em media cerca de um quarto (25 por cento) da reserva per capta media disponível no resto do mundo (2200 metros cúbicos por pessoa por ano, comparados com 9500 como media mundial). Estima-se que 70 por cento das cidades chinesas têm problema de disponibilidade de água, e em 10 por cento das cidades, a situação é severa. O governo estima que dos 550 bilhões de toneladas de água consumidas hoje, anualmente, em 50 anos, este consumo será de 800 bilhões. No lado dos resíduos sólidos, os desafios não são menores. Das 600 milhões de toneladas de resíduos gerados anualmente, cerca de 70 milhões são perigosos, e as soluções ainda não foram alcançadas.

 

Medidas severas estão sendo tomadas, como, por exemplo, a estratégia para tratamento de águas residuais estabelecidas pelo décimo plano qüinqüenal: até 2005, 60 por cento das águas residuais de cidades com mais de 600 mil habitantes, terão que ser tratadas, e até 2010, todas as cidades chinesas terão que alcançar o mesmo padrão. Os investimentos, como se pode imaginar, são enormes. Estima-se que no prazo de dez anos, (2001-2010), a China esteja gastando US$ 30 bilhões só nessa área de tratamento de águas residuais. O que a UNIDO diz é que talvez tão difícil quanto conseguir os recursos financeiros disponíveis para o tal empreendimento, é saber onde estão as melhores tecnologias que seriam adaptáveis à realidade chinesa, de forma competitiva. Novamente, portanto, estamos as voltas com o problema de conhecimento tecnológico e de administração, ou seja, como investir bem. Além disso, esse órgão da ONU está convencido que, devido a enorme extensão territorial da China (o que não é diferente do caso brasileiro), a única forma de se resolver o problema da sustentabilidade do ponto de vista ambiental é evitar as medidas ou ações de mitigação chamadas fragmentadas. E olhando inicialmente para o impacto ambiental causado por possíveis atividades industriais em qualquer parte do país, e em especial na região mais vulnerável que são os 12 estados do oeste, tem trabalhado para dar elementos às autoridades locais que facilitem o estabelecimento de um sistema integrado de informação e gestão ambiental, que combine ciência e tecnologia as necessárias medidas de administração. 

Parece claro, portanto, que o equilíbrio e o compromisso entre os três fatores: a competitividade de uma economia, que é um reflexo de seu setor produtivo e de sua saúde empresarial; o seu tecido social; e a estrutura ambiental onde ela esta localizada, sejam os elementos determinantes do sucesso por períodos longos de tempo (ou seja, de sustentabilidade) de regiões e paises. Além disso, tudo indica que não se pode prescindir da cooperação formal e informal da comunidade internacional (inclusive entre paises em desenvolvimento, o que a ONU chama, por exemplo de cooperação “Sul-Sul”. No caso da China, um país que deve receber em 2002 cera ce US$50 bilhões de Investimentos Estrangeiros Diretos - IED, assim como no Brasil e em qualquer outra parte do mundo, a combinação desses recursos estrangeiros com uma estratégia clara e objetiva de incorporação de conhecimento (inclusive na área de administração) no setor produtivo, deve facilitar o alcance de um modelo sustentável de desenvolvimento. 

A dúvida [que ainda sempre fica para o cidadão comum] é se o modelo econômico (imposto ao mundo por forças aparentemente “ocultas”), em troca da liberdade do pequeno jovem do campo ir pescar no córrego perto da roça do compadre, pode ao menos dar comida às crianças famintas do planeta, ao menos uma vez ao dia.

 

[1] Este artigo foi escrito Foi escrito nos meses de novembro e dezembro de 2001, pelo jornalista Guilherme Korte da Radio China Internacional, baseado em entrevista, documentos e diálogos posteriores com o brasileiro, Sergio Miranda-da-Cruz. O Sr. Miranda-da-Cruz e funcionário da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial – ONUDI/UNIDO, com sede em Viena na Áustria. No momento, e já ha três anos é o Representante da UNIDO para a Região Nordeste da Ásia (China, Mongólia, Coréia do Norte e Coréia do Sul). O Sr. Miranda-da-Cruz é engenheiro formado pela UNICAMP, com pós-graduação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT, em Boston – EUA. No Brasil, e antes de pertencer ao quadro da ONU, o engenheiro Miranda-da-Cruz foi professor da UNICAMP e funcionário do Banco de Desenvolvimento do Estado de São Paulo (BADESP). É funcionário da ONU ha cerca de 17 anos.
Agradeço ao amigo Sergio pela atenção e colaboração com o nosso site.

 

florestasite@florestasite.com.br                      

 

WebSTAT - Free Web Statistics